Somos um ser Divino, Completo e Complexo, com essa afirmação inicia minha atual palestra sobre
motivação. Divino pela relação que temos a energia suprema, Completo porque não há ser humano básico ou 1.0 e Complexo porque nenhum de nós consegue entender com plenitude a outra pessoa.
Os consultores nos ensinam que para ser reconhecidos profissionalmente é imprescindível fazer a tal
Network. Reuniões e almoços são marcados e agendados com pessoas nem sempre agradáveis, simplesmente por que temos que manter a tal rede. Nesses casos encontramos horário em nossa agenda, nem que para isso tenhamos que diminuir com o relacionamento familiar porque aos outros disponibilizamos nossos contatos de e-mails, celular, telefone comercial, residencial etc...
Claro não somos de ferro, por isso inventaram o Happy Hour, momento o qual separamos para curtir a relação de amizade. Mas quais são os amigos que participam? Claro os amigos da empresa que trabalhamos, assim, no momento de descontração aproveita-se para por os assuntos do trabalho em dia.
Desde a criação do SBP (terrível contra os insetos) nos anos 70, juntamente com a popularização das TVs nos quartos das crianças nos anos 90 e mais recentemente os PCs para cada filho, não temos mais o jantar em família e nem o contato com nossos vizinhos.
Antes do SBP, o aliado da amizade era o tal do Detefon, que de tão forte contra os insetos as pessoas eram obrigados a sair de casa, assim, facilitava o contato pessoal, as crianças brincavam com amigos na calçada e nós conhecíamos a família que morava ao nosso lado.
Hoje não há porque sair na sacada do apartamento ou no portão da nossa casa e ter contato com nosso
vizinho. Aliás, o que era uma forma de racionalização de espaço nas cidades grandes, passou a ser artigo de luxo nas cidades pequenas. Basta ganhar um pouco melhor que é chic morar em um AP. E por falar em prédio ou condomínio, o local deveria ser um espaço de facilidade para cultivar amigos, pois a porta de nossa sala é enfrente a porta da sala de nosso vizinho, mas acaba sendo um espaço de anonimato. Moradores entram no prédio e no elevador olhando para pés ou para teto e se limitam a balbuciar um cumprimento tal como “bom dia” sem sequer olhar nos olhos das pessoas. Ainda bem que há os porteiros para nos contar as fofocas do vizinho, da bonitona do 5º andar etc.
Vivemos na era da informação, mas perdemos o contato com nossos amigos e perdemos a identidade com nossos familiares, assim, reduzimos o contato a mandar pelo e-mail mensagens que anônimos fizeram e ou correntes de anjos e santos com orações lindas. Não se percebe a importância de ter contato pessoal com um
amigo. Aprendi que amigo é o irmão que escolhi e não tenho dúvidas disso, porque o carinho de uma amizade supera os laços de sangue, mas o tratamento é igual, porque com ambos perdemos o contato.
Albert Einsten com sua sabedoria traduziu a amizade mais ou menos assim: “Pode ser que um dia deixemos de nos falar, mas, enquanto houver amizade, faremos a paz de novo. Pode ser que um dia nos afastemos, mas, se formos amigos de verdade, a amizade nos aproximará”.
Não temos tempo para ligar ou visitar um amigo, afinal de contas são muitos os afazeres e preocupação com vida profissional. É o relatório que temos para entregar para o chefe, é a supervisão que temos que dar ao trabalho e sentimo-nos consumido e nosso dia é curto, às 24 horas são insuficientes para que possamos pegar um telefone e conversar com o outro. Bem sei que você não se esquece de mim, assim como também me lembro de você e de detalhes da nossa juventude, cabelos longos e barba, acreditávamos no socialismo e para ser feliz de verdade o mundo tinha que ter equilíbrio social.
Éramos rebeldes utilizando tênis, calça jeans surrada e camiseta, viajamos de fusca, dormíamos em barraca.
Conhecemos muitos lugares, brigávamos e voltávamos a conversar. Achei uma foto de uma das festas que participávamos, lá estava toda nossa turma no final dos anos 80, todos sorrindo e brincando. Bateu saudades!
Naquela época não existia celular, nem internet, morávamos em bairro diferente, mas mantínhamos contato permanente. Um visitava o outro, aparecendo sem avisar em qualquer hora ou dia na casa do amigo. Quando um brigava com a namorada a turma comemorava porque naquele final de semana iríamos sair juntos. Era até bom brigar com ela vez ou outra.
Continua sendo um grande amigo, mas talvez se hoje nos cruzarmos em um restaurante, você já não me reconheça mais, estou mais velho, quase careca, tenho filhos, utilizo quase sempre roupa social, barba bem aparada e estou do outro lado da mesa nas salas de aula.
Pois é meu amigo, eu que nunca fui um exemplo de aluno e acabei me tornando quase que um exemplo de mestre e hoje torço pelo sucesso do capitalismo. Não acho justo dividir o que conquistei com suor e trabalho.
Quanta coisa mudou em nossas vidas, quantas lágrimas derramadas pelos cantos sem ter um ombro amigo, quantos caminhos trilhados ao lado de desconhecidos, quanta vitória comemorada em silêncio.
Quem sabe um dia a gente aprenda a reservar na nossa agenda 10 minutos por mês para que possamos contatar nossos amigos e promover a partir daí uma rede de amigos sem a formalidade profissional. Dizem que com o celular e a internet o mundo ficou pequeno, mas a distância entre os amigos de verdade aumentou significativamente.
Finalizo com Shakespeare sobre a amizade e o amor “O amor é mais sensível, a amizade mais segura, o amor nos dá asa, a amizade nos dá chão, no amor há mais carinho, na amizade mais compreensão, quando o amor é sincero ele vem com um grande amigo e quando a amizade é concreta ela é cheia de amor e carinho”.
Luiz Zanutto – 11 – 7693.9942
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