Ponto de Vista


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AFASTE DE MIM ESSE

Luiz Zanutto
22-10-2007

Na época da ditadura militar mais precisamente em 1973 Chico Buarque escreveu uma das mais belas músicas sobre o momento político o qual vivíamos. Na letra destacava-se o refrão "Pai afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue".
Com a ocorrência da abertura política e a volta dos civis ao poder em 1986 através da eleição indireta do Presidente Tancredo Neves, vale lembrar que quem assumiu o poder foi o Vice-Presidente José Sarney, o mesmo que era da antiga arena e apoiava os militares e que atualmente apóia o presidente do senado Renan. Voltando ao assunto, com a democracia re-instalada no Brasil, tivemos restabelecido a liberdade de discordar de atos públicos, opinar sobre assuntos diversos e ter garantido o nosso direito de oposição.
Um país onde a ditadura estava preparada para ouvir apenas "sim senhor!" ou "não senhor!" era de se esperar que levássemos um certo tempo para entender o que é democracia, termo que vem da palavra grega que significa povo. Na democracia o povo é soberano e detém o poder.
Tão logo restabelecida a democracia houve excessos, muitos confundiram democracia com liberou geral e outros se sentiam como pássaros que estavam presos em gaiolas e não sabiam como era voar e nem procurar seus alimentos. Considerando que somos um povo muito criativo e que o jeitinho brasileiro prevalece em muitas circunstâncias, muitos daqueles que achavam que liberou geral esqueceram totalmente que o direito de uma pessoa termina onde inicia o direito de outra. Assim, começaram invadir a privacidade e a liberdade do todo, em favor de um pequeno grupo e a ética foi deixada de lado. Aliás, ética tem também sua origem na língua grega "ethos" que quer dizer modo de ser. Mas como se explica o que é ética? Todo mundo sabe o que é uma pessoa, uma organização pública ou privada que não tem ética, mas não é fácil explicar o que é ética.
Às vezes me pergunto como posso educar as minhas filhas considerando as palavras ética e democracia, se o que mais assistimos na televisão, o que mais temos de informação é sobre como estamos vivendo sob o comando da não democracia e da não ética.
Chegamos ao século XXI com atitudes de muito séculos passados. A era que se denomina "a era do conhecimento" em vários campos se depara com a intransigência de líderes religiosos que não aceitam as mudanças, discriminando homossexuais, prostitutas e o divórcio entre outras coisas e continuam com o discurso para recolher o dizimo, um imposto para adentrar no reino dos céus. Ressurge no seio da sociedade a intolerância racial. Jovens de classe média e alta com boa escolaridade estão assumindo posturas de discriminação e violência contra semelhantes. Sim somos semelhantes!! Por incrível que pareça somos os únicos que destroem seus semelhantes por mero prazer. O estudo do DNA já no inicio dos anos 2.000 deixa claro que não existe diferença entre cor, raça ou credo, porém permanece a ignorância social que nada tem haver com o nível de conhecimento. Insiste ainda a incoerência dos políticos que foram eleitos pelo povo e afirmam que não podiam escutar a voz do povo no caso do presidente do senado. Fato que poderia ser descrito como pitoresco se não fosse lamentável. Conectado nesses absurdos encontramos no mundo corporativo líderes ou melhor descrevendo chefes, que não tem a capacidade de ouvir e enxergar a diversidade social dentro da organização e não sabem e não querem aprender que a melhor maneira de conquistar as pessoas e melhorar a produtividade, qualidade é através de ter funcionários comprometidos e motivados. Para proporcionar a motivação das pessoas o passo mais importante é aprender a ouvir. Ouvir com vontade, ou seja, entender que aquilo que a pessoa lhe fala mesmo que possa parecer "bobagem" para você, para ela é algo de suma importância. Pode parecer ficção mas não é. Em uma empresa de porte médio um funcionário pediu ao superior hierárquico a possibilidade que esse avaliasse sua performance e também seu salário. O chefe ficou possesso, achou muita petulância do funcionário questionar sobre o salário. E mesmo considerando que aquele era um bom funcionário o demitiu. Em outro fato real que também demonstra a falta de sensibilidade, foi o caso de um funcionário com mais de dez anos na empresa e com excelente performance, foi demitido com a justificativa que era um funcionário caro! O que é um funcionário caro ou barato? Funcionário não é mercadoria é um agente que promove a qualidade, a mudança e o relacionamento da empresa com o cliente. O funcionário caro não é aquele que ganha salário "alto" e conquista e mantém cliente. Caro é aquele funcionário que ganha um salário "baixo" e só diz amém. Não é criativo, não respeita os clientes, mas faz a vontade do chefe e pratica a resposta do "SIM SENHOR!".
Em uma oportunidade depois de me apresentar em um teste como professor em uma grande universidade da região, o reitor que estava me avaliando fez a seguinte pergunta. "É possível dormir depois de um dia de trabalho versus um dia de aula, onde a teoria não conjuga o verbo praticar?". Olhei nos olhos daquele Sr e falei "o que estou cumprindo é apenas um dos muitos papéis que exerço na vida, assim como o papel de pai, de filho e me cabe não confundir os textos. Como pessoa não posso negar que o conflito aparece acompanhado da insônia em muitas noites". Ao terminar de falar ele me disse "à vaga é sua!".
Por tudo o que estamos vivendo como a falta de conexão entre o poder e o povo, capital e trabalho e família e sociedade é que digo Pai como é difícil enxergar a nossa frente esse cálice de vinho tinto de sangue!